Foste meu sonho calmo

Meu terrível pesadelo

Minha lembrança mais agradável

E a mais lamentável

 

Foste meu tudo

E meu nada

Minha vida...

Quem sabe morte?

 

Foste minha melhor fase

E a pior de todas elas

O encontro e o desencontro

 

Foste para mim

Um acontecimento bom (ou mal)

Uma dúvida constante.

 

 

Só pra me lembrar, que algumas coisas nunca mudam...

Contos Urbanos 4

Quase uma história de amor... 

 

 

 

 

     Ela era jovem, inexperiente, de família conservadora, completara 15 anos a poucos dias, tivera uma festa linda, luxuosa, com direito a baile de gala, muitos convidados, a famosa valsa, e todas essas bossas atribuídas a debutantes. Nunca tivera um namorado, nem mesmo uma paixão, em parte por causa do protecionismo exacerbado dos pais, que lhe davam tanta liberdade, quanto um bichinho preso em uma redoma de cristal, mas também era tímida, recatada, desviava sempre o olhar... Tinha face de anjo, olhos claros, cabelo longos e negros de uma luminosidade intensa, lábios finos e bem delineados, a pele era clara, sem imperfeições nem marcas, de uma maciez pueril e um perfume afrodisíaco, as formas de seu corpo deixavam transpassar que ela já era uma mulher, já sentia na carne os desejos da maioridade, tinha uma rotina de boa moça: escola, curso de inglês, balé, natação, coisas comuns a gurias de sua classe social.

    Ele já beirava os 30, era de berço humilde, nunca tivera muito, estava acostumado desde novo a pelejar pela sobrevivência. Mas, no entanto, as intempéries da vida não lhe tiraram os predicados, eram alto, de boa forma física, tinha cabelos loiros e bem cuidados, um brilho enigmático nos olhos, tinha uma voz aprazível, e sabia dizer belas palavras, fato que sempre lhe garantiu sucesso em suas conquistas amorosas. Sua infância foi marcada por temporadas em reformatórios, naquele tempo ainda conseguiam apanhá-lo, e seus crimes não passavam de meros furtos; mas ele cresceu, e com ele a hediondez de seus crimes, e o refinamento de seus métodos; tinha 21 quando matou a primeira por asfixia, sentia prazer em vê-las implorando pela vida, ou agonizando enquanto o sangue e a própria vida as abandonava.

Encontraram-se por mera coincidência, ela tinha decido do carro da mãe, atravessava a rua em direção à porta da escola de inglês, ele vinha no sentido contrário, distraído, fumava um cigarro... Esbaram-se por obra do acaso, ou do destino, cruzaram olhares, ele pediu desculpas, ela disse que a culpa era sua, conversaram... As coisas aconteceram naturalmente, ela deixando de lado sua timidez, pediu o número de seu telefone, ele encantado com aquela meiga, e nem por isso menos atraente menina, nem hesitou em atender seu pedido. Ela matava as aulas, coisa que nunca tinha feito antes, iam a cinemas, shopping, coisas que ela adorava, e que com ele eram bem mais interessantes; não levou muito tempo estavam apaixonados, ela já era outra, senhora de si, atitudes efusivas; ele não lembrava mais de seu passado.

Marcaram às 14h em seu apartamento, era um dia de inverno, chuvoso, vento soprando com voracidade, ela chegou toda molhada, tinha vindo correndo em meio à chuva, já não era mais ingênua, já sabia muito bem pra que servia um homem, e sabia exatamente onde tocá-lo, livraram-se das roupas... A tarde foi mágica, entre suspiros, e juras de amor, os dois faziam planos, combinavam como contariam a família dela sobre eles, falavam sobre casamento.

À noite, repetiram o ritual de horas atrás, ela já se sentia mais mulher, sabia como ter e proporcionar prazer ao seu amor; dormiram abrasados, apaixonados. Acordaram cedo, ela lhe sorriu, ele a beijou ternamente, acariciou seu rosto, e lhe deu três facadas no coração... Limpou o sangue da faca, e foi embora...

 Afinal, ele não podia perder sua reputação... 

Contos Urbanos 3

Morava no terceiro andar de um edifício no centro, mudara-se para ali pouco tempo depois do prédio ter sido construído; ainda havia cheiro de novo, quando abrirá a porta do 307 pela primeira vez, lembrava muito bem da primeira semana, das noites mal dormidas, tanto por parte do colchão, como da cama, já que eram novos, e pareciam um túmulo de mármore, tamanha a rigidez dos dois; naquele período o odor forte de tinta que vinha das paredes e do teto também o incomodava, já que desde criança tivera problemas respiratórios, e aquele cheiro o sufocava, apertava-lhe a garganta.

Falava pouco com os vizinhos, nem tinham muito tempo pra isso mesmo, tinha muitos conhecimentos e poucos amigos, sua rotina era cansativa, e não lhe permitia muito tempo para o lazer; o restaurante mexicano do final da rua era seu santuário, seu porto seguro, lugar de calmaria, ali passava as noites de sábado, que eram as únicas que tinha livre, entre burritos e tequila, deixava seus pensamentos criarem asas, observada com cuidado os transeuntes, buscando conhecer um pouco mais de sua vida, através de meros olhares. As domingos acordava cedo, fazia seu Cooper, cumprimentava pessoas que ele mal conhecia pela rua, tomava seu banho, o qual para ele, era um ritual lento e prazeroso, já que  a uns três meses, tinha adquirido uma banheira, depois vestia-se de forma mais despojada que nos dias de trabalho, ia a casa dos pais, almoçava, tomava um conhaque com o pai. Falavam das coisas da vida, política, economia, sobre o tempo, futebol, enquanto sua mãe lavava a lousa, depois esta se reunia a eles, e vinha com o mesmo assunto que tanto o atormentava: casamento. Sempre os mesmos argumentos, os pais não entediam como ele, bem apanhado, bom emprego, bom apartamento, mantinha-se sozinho, e ele não entendia aquela cobrança dos pais, logo eles que brigaram a vida toda, e estiveram a ponto da separação várias vezes. Lá pelas 19h voltava pra casa, passava pelas mesmas ruas, parava no mesmo bar, comprava os mesmos cigarros, chegava em casa e ouvia o mesmo disco, um Radiohead, que ele nem lembrara mais de quem tinha ganho ou comprado, mas que era umas das poucas coisas que gostava de ouvir.

Na segunda pela manhã começava sua rotina, as 6:30h já estava de pé, ligava o rádio, fazia o café, dava uma rápida espiada no jornal, e punha-se a caminho do ponto de ônibus, sentava-se sempre no mesmo banco, o do meio, que àquela hora ainda estava vazio, aos poucos o movimento aumentava, mulheres passavam apresadas, deixando uma mistura de perfumes no ar, homens comentando sobre a última rodada do futebol vinham de todos os lados, os ônibus eram das mais diferentes cores e companhias, crianças indo para a escola davam um tom mais alegre aquelas manhas. O seu era vermelho, um dos últimos daquele horário, vinha e ia quase vazio, o cobrador e o motorista já eram velhos conhecidos para ele. Havia algo que toda manha o deixava muito curioso, era um ônibus branco com detalhes em azul, não havia cobrador, os bancos pareciam ser de veludo, até o odor daquele ônibus era agradável. Não havia indicação do destino do ônibus, nenhuma placa ou letreiro, nada escrito; o que mais lhe causava estranheza era a fisionomia de seus passageiros, todos com um ar sereno, alguns com um leve sorriso, uma aura de paz emanava daquelas pessoas. Trabalhou mal aquela semana, não foi ao restaurante, não almoçou com os pais. Na segunda foi até a parada, dessa vez não sentou no banco, ficou de pé, apenas aguardando, quando aquele ônibus, que rumava para o desconhecido chegou, nem hesitou em entrar, sabia que era a vez dele.

Hoje os amigos, ou melhor, conhecidos lembram dele até que com certa saudade, e os pais se perguntam pra onde ele terá ido...

 

 

Nem parece banco...

“Unibanco é o banco em movimento, pra jamais ser parecido. Unibanco nem parece banco...” Pois temos um banco, que afirma não parecer banco, como assim? Quais são os predicados desta instituição então? Parece o que, uma padaria, pet shop? Acho descabido, falho mesmo, mas vá lá, nunca entendi muito bem essas estratégias de publicidade e propaganda... Tudo bem admito que o  exemplo não seja o melhor, não ilustre  tão bem o que quero dizer, mas o fato é o seguinte: todos nós temos um pouco de Unibanco; que atire a primeira pedra àquele que nunca teve vontade de ser outro, que nunca nutriu inveja do amigo, do vizinho, daquele ator famoso que a sua namorada adora, e você é claro odeia. Nos acostumamos a consumir, a comprar aquilo que o mercado e a mídia nos ordena, a televisão nos diz o que é bom ou ruin, buscamos vorazmente estar nos padrões visuais e de comportamento da sociedade. Compramos a preço de ouro um tênis que custa ao seu fabricante no máximo R$ 50, gastamos uma fortuna naquela roupinha de marca, que desbota em uma semana, ou que na primeira vez que você lava encolhe, e você é obrigado a dar para aquele seu primo, que você nem gosta muito, ou dar para aquele seu cachorro chato, aquele mesmo que comeu as suas meias da Adidas no almoço, para ele dormir encima. De uma forma bem didática, trocamos o “ser” pelo “ter”; nosso materialismo sempre fala mais alto, quantas vezes vamos a um supermercado ou uma loja e compramos apenas por comprar, tão somente para satisfazer nosso ego e nossos olhos.

Os números falam por si, aumento exacerbado da inadimplência, comerciantes que recorrem a serviços de proteção de crédito, a fim de receberem o que lhe é devido; levamos o que não podemos pagar, o que nos é desnecessário, e tudo isso a fim de buscar status, estamos nos tornando (ou já somos?) fúteis, vazios e cada vez mais somos sugados por este ciclone, que leva nossas reservas financeiras, e nos transforma em meros escravos do sistema neoliberal, que tanto nos oprime.

Contos Urbanos 2

Seu andar era lento, pesado, a cada passo sua angústia aumentava, sua respiração era difícil, a neblina que o cobria era densa, turva, mal se podia ver através dela, respirar exigia grande esforço, o ar era intragável; caminhava com a cabeça baixa, sentindo o peso do mundo sob suas costas, sua expressão era fechada, lábios cerrados, seu olhar era perdido, tinha a face abatida, desfigurada...

A cada metro, o céu caia mais sobre sua cabeça, e o ar ficava mais irrespirável, em sua confusa cabeça os pensamentos eram desencontrados, não sabia como lidar com aquela situação, nunca tiveram problemas antes, como aquilo podia acontecer? Já não mantinha mais a lucidez, não distinguia o que era real ou ireal...

Sabia que aquilo não era de seu feitio, logo ele que sempre fora tão sério, tão senhor de si, fazer algo tão impulsivo, tomar uma atitude impensada, que era contra seus princípios, mas o desespero o dominava, o tornava escravo, exercia um domínio sobre ele de forma irredutível; apenas uma ladeira o separava do destino e de um possível final trágico, era mal iluminada, formada de paralelepípedos já envelhecidos, suas casas eram de uma arquitetura arcaica, umas poucas já estavam em ruínas, culminava num ponto escuro e sem saída, andou mais alguns metros, o desespero exalando de cada poro de seu corpo; chegou ao portão, exitou por um momento, enxugou o suor da testa e atravessou-o com a nuvem da dúvida sob sua cabeça...  Subiu a escada, passos irregulares, desordenados...

Abriu a porta com um movimento brusco, cruzou a sala e foi ao quarto, ela estava sentada à cama, a fitou com olhar transtornado, cerrou os punhos, avançou sobre ela de forma violenta e decidida, e tomou a atitude mais covarde de sua vida, atirou-se aos pés de sua mãe e chorou... Simplesmente chorou....

“As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental...” o poeta já dizia e nós corroboramos... Confessemos a verdade, homem que saber de mulher bem apanhada, com curvas perfeitas, e que lhe dê status, que seja uma referência ao seu lado, que chame atenção. Mas as fêmeas de nossa espécie não ficam atrás, mulher não gosta de homem, mas sim de dinheiro e poder, e é a isso que me refiro...

As pessoas mudam com o tempo, são tão instáveis quanto um vulcão ativo, devastam da mesma forma. Não faça todas as suas apostas em ninguém, quando menos se espera a sorte muda de lado, você entra numa maré de azar, e perde tudo, mas não se esqueça, não são fichas, é a sua vida que esta em jogo.

 Você confia nela, declara seu amor, diz que ela esta linda, mesmo que esta tenha acordado a pouco, esteja como a rosto todo amassado, e com um pijaminho ridículo, de ursinhos Panda, saindo pelas pernas. Dedicação, carinho, respeito, desejo não faltam, ela diz que te adora, que não vive sem você, que ninguém tem suas qualidades, resumindo ela encontrou seu homem, o cara perfeito. Dias depois ela diz que vai embora, e vai mesmo, sem entender por que, você fica transtornado, corre atrás, chora, se desespera, mas ela esta irredutível, diz que não dá mais, que a relação acabou... Meses depois a irmã da melhor amiga dela lhe conta, que a dita cuja esta namorando aquele seu amigo, o do carro importado, aquele mesmo campeão de vale tudo, que por acaso, nunca foi tão seu amigo assim, e pior, a relação dos dois é antiga, e o mais provável, é que ela se encontrava com ele enquanto vocês estavam juntos. Traído, deprimido, arrasado, você se sente o pior dos homens, vai ao primeiro bar que encontra, aqueles bem clássicos, com o ovo em conserva, mandolate pra vender, e aquela prateleira no alto, com várias garrafas de bebidas caras, que nunca foram abertas, bem empoeiradas. Então você enche a cara, chora as pitangas com o primeiro que encontra, provavelmente com o pinguço de plantão do local, aquele que vai lá diariamente, e toma a famosa “branquinha”, diz que quer morrer, que sua vida não tem sentido... E ele claro, mais embriagado que você, concorda com tudo, afirma que a vida é injusta, e deixa você ainda pior. Lá pelas 3h da manhã, que é quando o dono do buteco resolve escorraçar você e seu companheiro e ir dormir, você volta pra casa, lógico que escorado no seu novo amigo, até a esquina em que ele cai, e fica estirado até a próxima manhã.

Enquanto isso ela aproveita a vida, com seu novo namorado, vai aos lugares mais badalados da cidade, aparece nas colunas sociais dos jornais, parece estar mais linda, mais feliz, nem lembra mais de você.

“Que não seja imortal posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure...” Vinícius de Moraes termina o poema assim, mas numa época em que o materialismo ainda travava uma guerra com os sentimentos verdadeiros, já você não tem um final tão romântico...

 

Último dia do resto da minha vida
Se eu soubesse disso

Teria dado um beijo de adeus à minha mãe
Eu não disse quanto a amava, quanto carinho eu tinha por ela
Ou agradecer meu pai por todas as conversas
E toda sabedoria que ele compartilhou
Sem saber, eu apenas fiz o que eu sempre faço
Todo dia, a mesma rotina
Antes de ir para o colégio
Mas quem sabia que aquele dia não seria como os outros
Ao invés de tomar um teste
Eu tomei dois tiros no peito
Me chame de cego, mas eu não vi nada
Todo mundo estava correndo
Mas eu não consegui ouvir nada
Apenas disparos de armas, foi tudo tão rápido
Eu não conheço muito bem esse garoto
Apesar de sentar do lado dele na aula
Talvez esse garoto estava precisando de amor
Ou talvez estava vivendo o momento
Ele esqueceu que ele era
Ou talvez esse garoto apenas queria um abraço
Qualquer que seja a razão
Fica difícil quando a gente não tem amigos
Ele terminou com sua vida
Agora eles talvez lembrem dele
Você cruza uma linha e não tem mais regresso
Disse ao mundo como se sentia
Com o som de uma pistola
Quem podemos culpar pelas tragédias dessa vida
Não importa o que você diga
A dor não vai ser retirada
O que eu sinto dentro de mim, estou tão cansado de todas as mentiras
Não sei porque
É o cego guiando o cego
Acho que é assim que a estória vai
Será que um dia vai fazer sentido
Alguém tem que saber                                                          
Tem que ter algo a mais nessa vida.                                      

Galvão Bueno

 

 

Domingo de manhã, nada pra fazer, ligo a televisão, o que já é um erro, mundial de basquete feminino é o cardápio. O fato é o que o Brasil não tem muita tradição no esporte, mas vamos lá, a oponente Austrália dando um laço no nosso time, até ai tudo tranqüilo, até que eu coloquei volume na televisão. Ai veio aquele tradicional “bem amigos da rede globo”, ele mesmo Galvão Bueno o locutor mais comentarista da crônica mundial, não gosto muito do cara, mas até que ele tava comportado, mas após 3 erros seguidos de ataque da seleção canarinho, este fez um discurso sobre a falta de incentivo para o esporte em nosso país...

Tudo bem, ele até tem razão, embora eu ache que o problema da seleção é ruindade mesmo, o problema é que ele falou. Há quem goste do Galvão e quem odeie, eu faço parte do segundo time. Acho ele arrogante, se mete em tudo, dá opinião em todos os assuntos, mesmo que não os domine, será que o rapaz é candidato? Tem perfil...

O programa dele lá na Sport TV, o “Bem Amigos”, nome “muito” original, olhei duas vezes, não consegui prestar atenção, era basicamente uma overdose de Bueno, ele pergunta, ele mesmo responde, e ainda faz a réplica, a tréplica, e a explanação final, o lance é um monólogo.

Uma coisa admito, o cara é profissional, daqueles que acordam 4 horas mais cedo pra decorar o que vai falar, o locutor é um ícone brasileiro, tem salário de pop star, e reconhecimento do público, emociona, inflama torcidas. “Parou Rubinho...” e “Gol do Rrrrrrrronaldinho...” ainda serão ouvidos por muito tempo, mas uma coisa é certa, ele é um chato, e tem coisa pior, tem o Paulo Brito... “Feito...”.

 

Contos Urbanos 1

 

Aquele poderia ter sido apenas mais um dia, tão comum quanto todos os outros, a cidade permanecia a mesma: fria, cinza, com seus imensos prédios constituídos de vidro e aço, suas ruas e avenidas, que mais pareciam veias e artérias de um gigante, prestes a entrar em colapso e aquele ar denso, difícil de ser respirado, carregado de sentimentos conturbados, uma ansiedade gerada sem motivo, uma esperança em coisas desconhecidas... Quanto a mim, também não se percebiam mudanças, seguia sendo o mesmo, apenas com o passo mais acelerado, devido a um leve atraso, coisa que não era corriqueira, não que  eu fosse merecedor de um título de bom funcionário, mas evitava transtornos, já que meu superior, era um homem rude, com uma ideologia tão arcaica, quanto à forma de tratar seus subordinados, o qual considerava meros objetos, podendo os manipular conforme lhe era conveniente.

Tomei a mesma condução de todos os dias, pois graças ao fato de ter apertado o passo, consegui recuperar meu atraso, provavelmente causado por aquele vinho barato, e aquele noite mal dormida; trabalhava num bairro distante do centro, em linha reta na levaria mais de 30 min, mas devido à série de desvios que o ônibus fazia, levava mais de uma hora inteira, minha repartição ficava num prédio antigo, naqueles sobrados que parecem ter parado no tempo, um clima nostálgico exalava dele, era como se a qualquer momento, fossemos transportados a infância, e acabássemos no cólo de nossos avós, ouvindo histórias fantásticas, de tempos encantados, em que os contos de fada, tinham seu fundo de verdade... A rota era sempre a mesma, as mesmas praças, mesmas esquinas, a lotação parava nos lugares costumeiros, ou seja, quase que se mantia em movimento o tempo todo, pois além de mim, só algumas senhoras se dirigiam para aquele afastado bairro. Mas naquele dia, o ônibus fez uma pausa em um local diferente, no qual nesses anos, não lembro de ter visto ele parar, apesar de surpreso, não reparei em quem adentrava a condução, pois já tinha mergulhado em meus pensamentos, por vezes tão melancólicos quanto aquele lugarejo... Quando voltei a mim, percebi que alguém havia sentado, no banco imediatamente a minha direita, achei estranho, pois eu estava bem no fundo, e praticamente todos os bancos a minha frente estavam vagos, mas logo deixei de dar importância...

Passados alguns metros, percebi que era observado, por um instante me contive, até que não resisti mais, era mais forte do que eu, foi ai que troquei meu primeiro olhar com ela, e meu deus! Como era bela... Cada detalhe parecia ter sido milimetricamente estudado, para depois ser esculpido, cada centímetro era belo e intenso, creio eu, que pelos traços de seu rosto, não ultrapassava os 21 anos. E aquelas pernas, nossa aquelas pernas, maldita saia! O que quer? Que eu me esvaia em desejo? Passados alguns pensamentos impuros, voltei a mim, desviei o olhar, não queria passar a impressão de ser um tarado, ela podia ser minha filha, pois eu já beirava os 40... O que me intrigava é que ela mantinha um olhar fixo sobre mim, tudo bem que para minha idade, eu ainda mantia um certo charme, uma barba bem feita, um abdômen bem definido, mas acho que isso não chamaria atenção de uma guiasinha daquelas, que como diria meu filho, o mais velho pois tenho 2, era muito gostosa.... Logo passei a me incomodar com aquela situação, ela não me tirava o olho, eu já era consumido por várias teorias, que explicariam aquela situação.

De início, imaginei que ela poderia me conhecer, mas logo afastei essa hipótese, pois não sou de esquecer um rosto, e provavelmente se me conhecesse ela teria dito, quando a encarei... Talvez conhecesse meus filhos, o mais velho quem sabe, isso! Uma namorada, ou como dizem os jovens de hoje, uma ficante dele... Mas como ela conheceria meu rosto, e saberia quem sou, com toda certeza, meu filho, não anda com uma foto do pai na carteira... Então qual era o motivo, por que o olhar intermitente, eu já começava a corar o rosto, uma vergonha não sei de que tomava conta de mim... Tive idéias tão estúpidas quanto aquela vergonha, talvez meu rosto estivesse sujo, ou coisa assim, e aquela putinha estivesse curtindo com a minha cara, por sorte dentro de minha pasta tinha um cd, que naquele momento parecia ser o melhor dos espelhos, me examinei e não encontrei nada, o cabelo meio bagunçado, mas só isso...

Cheguei a pensar que ela estivesse me confundindo com um namorado, ou um amor do passado, mas logo afastei mais essa idéia descabida, o que alguém tão jovem iria querer com um homem já tão vivido... Esse foi meu último pensamento, pois logo levei um susto, tinha passado de meu ponto, levantei logo e fiz sinal para que o motorista parasse o ônibus no próximo, levantei e me dirigi à frente da condução, tremi quanto percebi que ela me seguia em direção a porta...

Naquela proximidade conseguia sentir seu perfume, ouvir sua respiração... O ônibus parou, desembarcamos em fila indiana, caminhamos 50 metros, lado a lado, sem trocar nenhuma palavra, nenhum olhar... Chegamos a esquina, não poderia resistir mais, tinha que perguntar a ela, por que me olhava daquela forma, se me conhecia, o que queria comigo... Na distração desse pensamento ela passou por mim, atrasou a rua com calma, como se andasse sobre nuvens, e foi sumir nas sombras de uma galeria, nunca soube quem era ela, ou o que queria me dizer, se é que tinha algo...

 

 

 

 

© Ramon Cardoso

 

Soberba define eleição gaúcha

 Os gaúchos perante o mundo são considerados um povo por demais tradicionalista, uma terra onde os costumes são preservados, o bairrismo e o orgulho exalam por todos os confins do pampa, ostenta-se um longo histórico de lutas, batalhas ideológicas, políticas, revoltas armadas. Mas estes homens da província de São Pedro são contraditórios em sua soberba, ergueram uma revolução, disseminaram idéias abolicionistas, esculpiram uma república para fugir da dominação do centro do país, se apenas para vender seu charque, ou por motivos nobres, isto agora é irrelevante, o fato é que o resultado das urnas pôs em cheque seus valores, tanto se resistiu a dominação, e agora entregasse sem resistência o Palácio Piratini aos paulistas.

Os tucanos dentro de suas trincheiras avistaram um povo dividido, confuso, descrente de seus próprios patrícios, o antepetismo foi à bomba de hidrogênio de Yeda, seu resultado foi devastador, e seus efeitos serão sentidos na carne por muito tempo. O mais politizado dos povos da república do Tupiniquim, entregou sua alma a uma mulher com passado duvidoso, idéias difusas, participação pífia dentro da política, sua historia é marcada por contradições, resultados negativos, privatições sem sentido, e submissão total ao sistema neoliberal que tanto nos desumaniza. O céu esta escuro, as nuvens são negras, nem se vê o horizonte, regiões como o Vale dos Sinos, que tanto tem sofrido nos últimos anos com a crise do setor calçadista, agora prepara-se para receber o derradeiro golpe, e fechar suas portas de forma definitiva.

Fomos passivos, arrogantes, não honramos nossa história, e agora somos mais escravos que nunca, mas ao contrário dos farrapos, não lutamos contra o império, lutamos contra um inimigo caseiro, e que não pode ser vencido até a próxima eleição.

R@mon Cardoso

Contos, crônicas, frases estúpidas, inutilidade e o contraponto...

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